Interpretação é, e sempre foi, o que torna o RPG um jogo
único e envolvente, sem concorrentes a altura até hoje. Infelizmente, muito da
emoção e da qualidade do jogo vem se perdendo com o imediatismo moderno e a
visão “combística” dos RPGs eletrônicos que impregna a mente de novos
jogadores.
A interpretação não se foi, mas por vezes é pisoteada em
sessões de RPG por ai a fora.
Que tal tentarmos fortalece-la?
A interpretação depende da construção do personagem, do
personagem, não daquela pilha de letras e números no papel. Quem é o personagem?
Você precisa saber da índole do seu personagem, seria ele uma pessoa boa por
natureza? Ou ele faz o que mais lhe convém? Ele é cruel sem motivo? Ele acha
que há motivos pra ser cruel? Quais seriam?
Tente compor seu personagem com um nível mias profundo de detalhes. Quanto mais você souber dele, mais naturalmente pensará como ele dentro do jogo.
Construa sua personalidade, seus gostos e desgostos, seus medos e vícios assim
como cada detalhe que o torna único.
Seu personagem não é apenas mais um andando por ai, pelo
menos não pra ele.
O que seu personagem viveu, construiu e lapidou o que ele
é hoje. O passado pode criar gatilhos para as situações que o personagem já
viveu e, ao se ver em condições semelhantes ele pode, digamos, não ser ele
mesmo. Um trauma de infância, a morte de alguém, algo que o lembra de casa, desafios superados, ou não.
Construa um passado crível, e condizente com o presente
do personagem.
Cada momento do passado, bom ou mal deixou uma marca.
Quando alguma situação surgir pense; ele já viu algo semelhante? Se sim como
reagiu? Que resultado obteve? Ele faria de novo do mesmo jeito? Se não, eis a
sua oportunidade.
Experiência não são só aqueles pontinhos para ganhar “nível”,
há sempre influencias do passado nas ações de qualquer um. Imagine as lições que
o passado deu ao seu personagem e use-as quando ele precisar. Explicações
usando uma antiga experiência, o narrar de uma história vivida no passado, ou o
comentário do que aconteceu numa aventura anterior em situações semelhantes transformam
seu personagem em mais que uma mera peça dentro do jogo.
Seu personagem não está apenas no mundo de jogo, ele faz
parte desse mundo! Que lugares ele já visitou, quem já conheceu? O que ele
acha de certo tipo de povo ou cultura? O que ele pensa do governo atual, ou da
forma como as coisas funcionam, politicamente falando? Ele se mistura ou apenas
convive a certa distância dos costumes locais?
Como seu personagem reage às pessoas e aos lugares do
cenário podem transformar uma visita a cidade em uma aventura ou uma aventura
em uma simples visita à cidade.
Ainda com suas experiências, imagine seu personagem
vivendo simbioticamente.
Como ele é conhecido pelos que já o viram por ai? Não só
como ele reage ao cenário é importante mas também como o cenário reage a ele.
A motivação que guia a todos e os mantem seguindo em
frente, poucos sobreviveriam a situações adversas sem um objetivo a conquistar.
E, a menos que seu personagem seja muito “caótico”, ele não fará nada sem um
porque, mesmo que o porquê seja tolo ou incompreensível para os demais. Vide o “porque
eu quis”.
Por que ele se aventura por ai? Ele não se aventura? Por
que?
Por que ele pensa isso ou aquilo? E em que esse porque
influência em suas decisões ou em outras atitudes? Seria porque teve uma experiência
anterior? Porque prefere assim? Porque aprendeu desse jeito e nunca tentou
diferente?
Por quê?
Você (jogador) não gosta disso ou daquilo? Sabe que tal
coisa faz bem, ou mal?
Sabe se o caminho é pra esquerda ou pra direita?
Não importa, você não está lá. Mas seu personagem está. O
que ele sabe? E quanto ele sabe?
Seu personagem e você são pessoas diferentes, e se não forem, a interpretação não existe.
O que você sabe e seu personagem evidentemente não
saberia, importa apenas pra ser ignorado. Se você tem dúvidas do que seu
personagem sabe, pergunte ao Mestre.
Seu personagem é um perito em química e você mal
reconhece água quando vê? Sem problemas, diga que fez algo, qual seu objetivo
nessa atitude e role os dados.
Se fez e se poderia fazer o Mestre dirá.
Vale lembrar de não exigir também explicações elaboradas
dessas situações ao Mestre, assim como você ele não tem obrigação de ser, por
exemplo, um químico como seu personagem.
E se você for um químico e o Mestre disser algo
cientificamente “errado”, ignore. A palavra final é dele. Afinal, no cenário
dele, quem manda na ciência é ele.
Pode ser que ele goste de ser informado do “erro” mais
tarde em particular, fora da sessão de jogo, mas nunca durante. A menos que ele
pergunte.
Então você (jogador) sabe que o tal monstro é cego? Sabe
que a criatura sinistra tem um ponto fraco? Já ouviu aquele enigma num filme
antigo? Conhece a ficha do inimigo? Observou o sorriso semi-sádico do Mestre e
sabe que tem perigo atrás daquela porta? Viu o mapa do Mestre sem querer e sabe
que nessa sala tem uma armadilha, ou uma passagem secreta? Bom, sinto muito,
mas não devia saber.
Então aja como se não soubesse, se não puder, não aja.
Deixe que os outros jogadores fiquem com toda a diversão dessa vez.
O Metajogo pode arruinar o desafio cuidadosamente
planejado pelo Mestre e acabar com a diversão dos outros jogadores que queriam
a emoção do descobrir.
Você já sabia? Acontece, mas não seja egoísta ou exibido.
RPG não se joga sozinho.
Você jogador converse com o Mestre sobre seu personagem,
ele deve entende-lo quase tanto quanto você e isso o fará criar propositalmente
situações típicas e atípicas ao seu personagem e aos de seus amigos que serão
divertidas para todos no grupo.
Você Mestre transpareça a personalidade de seus NPCs, trejeitos,
tom de voz, linguajar, atitudes etc. Deixe que seus jogadores reconheçam os NPCs até pela voz, pelo jeito de falar ou pelo que fez ou deixou de fazer.
* * * * *
Esse é um assunto recorrente nas postagens do blog, mas dessa vez espero ter concluído o assunto, por hora.
Você e seu grupo se dão bem interpretando seus
personagens? Algum jogador mal acostumado com videogames? Como você lida com o
Metajogo?
Até.